segunda-feira, 7 de junho de 2010

A bicicleta

OS ACONTECIMENTOS SEGUINTES, ACONTECERAM ENTRE AS 15:00 E AS 16:00 DE UM DIA DE VERÃO DO ANO DE 1978...

Bem... Aquilo que aqui vos vou deixar, é uma das mais intensas memórias que tenho gravada no meu cérebro... e não só!

Naquela tarde soalheira do final de Junho, encontrava-me em casa.
As aulas tinham acabado, e eu, à semelhança de tantas outras crianças estava a iniciar os meus três longos meses de férias. O dia tinha amanhecido quente e a temperatura tinha subido até aos impressionantes ( para aquela altura ) 31 graus centígrados, nós ( eu e alguns dos miúdos da vizinhança, todos amigos ) decidimos ir para a rua andar de bicicleta!
Foi aí e para consternação geral que constatámos o óbvio... Ninguém tinha bicicleta!!
Dito isto poderão pensar como será possível escrever uma história sobre uma bicicleta... sem a mesma.
Acreditem, é possível.
Com tão arreliadora dificuldade à nossa frente começámos a magicar como iríamos dar a volta à coisa...
Depois de muito meditarmos e um pouco à laia do Vaticano ouve fumo branco! O Jorge afinal tinha uma bicicleta! Bom... lá bicicleta era, tinha era o garfo ( ligação do guiador ao resto da bicicleta ) partido, e pronto, era para crianças com um terço da nossa idade, mas isso era um pormenor insignificante diga-se.
Decididos pusemos as nossas mentes a trabalhar, vai daí lembrei-me que com um cabo de vassoura velho metido por dentro do tubo do garfo da bicicleta e depois com dois pregos ou parafusos a atravessar o tubo e o cabo da vassoura a coisa resolvia-se, dito e feito.
Claro está, que como privilégio de ter sido a alminha que teve tão luminosa ideia, tive direito a ser o primeiro a ensaiar a "nova" bicicleta...
Convêm aqui, e num pequeno aparte referir, que a localização onde toda esta acção se desenrola
é nem mais nem menos que uma rua de Lisboa, daquelas que estão directamente ligadas a uma das sete colinas pelas quais a cidade é conhecida.
Agora que já estão situados imaginem a situação... Cinco crianças na casa dos quinze anos, sendo que uma delas está sentada numa "bicicleta" para idades até aos sete anos ( sejamos benevolentes ), no cimo de uma rua cuja inclinação rondará seguramente os 20%, com um cabo de uma vassoura a segurar o guiador. Parecia o RED BULL dos anos 80.
A louca descida começou, de inicio com algum receio, mas a meio da descida e já em impressionante velocidade o medo deu lugar ao PÂNICO !!!
O cabo de vassoura com tanta trepidação e força acabara de ceder... Eu ( sim não esqueçam que era "EU" quem conduzia a bicicleta) vi-me de repente, qual desenho animado, a descer uma rua a talvez trinta ou quarenta quilómetros hora sentado numa bicicleta com um guiador na mão mas... sem que este tivesse ligado à dita bicicleta, logo sem qualquer controlo sobre a mesma!!
Como naquela época ainda não era conhecido por cá o já referido RED BULL e eu não tinha asinhas, tive como primeiro pensamento "Estou lixado" ( sim que nós não diziamos asneiras... outros tempos).
De imediato, em questão de milésimos de segundo, arquitectei a forma de provocar menos estragos, e vai daí, pimba!!
Bicicleta para uma lado, contra a parede de um prédio, e eu para o outro, a deslizar pelo alcatrão até acabar imobilizado debaixo de um carro que se encontrava estacionado.
Escusado será dizer que para além de ter parte dos joelhos, canelas, pés, mãos, cotovelos e até ombros em sangue, o meu primeiro pensamento foi como é que eu iria explicar à minha mãe a roupa toda rota com que ia aparecer em casa... A inocência e o respeito eram tão bonitos.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

I lóbe you

Estava frio, a manhã amanhecera fresca e como sempre fazia tinha observado os meus pais partirem em direcção ao campo.
O trigo crescia em direcção ao sol e precisava ser rapidamente colhido.
Eu por esta altura estava também a iniciar as minhas tarefas diárias, ordenhar as vacas, colocar feno fresco ao gado, colher os ovos das galinhas, atear a lenha do forno do pão e finalmente se o tempo sobrasse ir aos pássaros com a minha fisga.
Nesse dia decidi afastar-me um pouco mais.
Com o pensamento na lua lá fui observando, correndo, saltando muros e dei comigo à beira do ribeiro a uns bons quinhentos metros de casa. Por cima de mim bem no alto de uma ramada de oliveira... um belo pardal de asa branca!
Agachei-me, apontei e no preciso momento em que vou soltar os elásticos oiço uma gargalhada!
Cai de costas com o susto. Rapidamente me recompus e tentei ver de onde tinha vindo tão sonoro riso, um pouco mais abaixo e à direita dei com uma menina linda, talvez a mais linda que tinha visto até essa data, loira com longos cabelos aos canudos caindo-lhe pelas costas.
Foi uma aparição divina, sim divina, pois só assim poderia explicar aquelas palavras das quais não percebia patavina. Seria isto uma estrangeira?
Já tinha ouvido falar delas pela boca do Ti Manel da Surda, ao que contava todas elas eram louras altas e bonitas e ao que dizia era também muito comum vê-las vermelhas que nem verdadeiros tomates, depois de um valente escaldão do sol.
Aproximei-me... escondido claro está, subi para cima de um sobreiro e fiquei a observar, a menina tomava banho no ribeiro em alegre brincadeira com o seu canito, e que giro que ele era!
Estava decidido ía falar com ela!
Bom... falar é como quem diz, que de estrangeiro não sei nada, mas cá me haveria de ocorrer alguma coisa, esgueirei-me um pouco mais pelo sobreiro e de súbito aconteceu. O pé!
O pé escorregou, as mãos não me conseguiram segurar, e eu vim do céu à terra em menos de um farelo. Foi com pompa e circunstancia que fiz a minha entrada... melhor dizendo, com um valente estrondo e com não menos grande grito.
Ao ouvir tão grande algazarra, a menina que por esta altura já tinha o canito a ladrar na minha direcção, assustou-se, também ela gritou, e desatou a fugir...
Fiquei de joelhos a vê-la correr e pensei... "tinha de ser, nem me deu tempo de lhe dizer, I lóbe you!"